O melhor do mundo são as crianças
Um conto de Natal
Ao fundo da rua da menina, vivia uma família misteriosa. Havia uma mãe bonitona, género Hepburn, sempre com enormes óculos escuros e lenço na cabeça, um filho de cabelo cenoura, muito ensimesmado, e uma bebé gordinha de meses. Não se davam com os vizinhos, não recebiam visitas e nunca deles ninguém soube sequer o nome.
Tinha a menina sete anitos entusiastas e curiosos, quando, na madrugada de Natal, recebeu de presente a sua primeira bicicleta - o Menino Jesus cumpria então os seus deveres à primeira alva e não havia cá cenas de pais natais importados do centro comercial mais próximo. Crente que era uma ciclista inata e poderia, naturalmente, começar a pedalar sem aulas de instrução, à socapa, sem mais aquelas, ainda tudo dormia e nem uma agulha bulia, escapuliu-se para a grande aventura. Prantou-se no alto da rua em cima do velocípede - pois a descer todos os anjinhos voam – e pedalou uns metros, logo perdendo o controle dos pedais. Deslizou, assim, pela ladeira, em alta velocidade e no melhor estilo queda livre, entrando desabrida pelos portões abertos da casa dos Hepburn, onde se estampou com estrépito e pose num maciço de begónias.
Graças ao conhecido efeito colchão das plantas, ficou apenas um pouco amachucada: doía-lhe sobretudo o orgulho. A bicicleta, no entanto, não teve a mesma sorte e sofreu mais no corpo que na psique. Suspeitando que a sua carreira de ciclista iria ter vida efémera assim que o guiador torcido fosse detectado pelo raio X do olhar materno, a menina resolveu lançar-se à misericórdia da misteriosa Senhora Hepburn. Com um pouco de sorte e sinceras desculpas pelo infausto falecimento prematuro das begónias, talvez ela lhe arranjasse remédio para a bicicleta, pensou, com a crença na omnipotência dos adultos típica das infâncias felizes. E talvez o episódio ficasse no segredo dos imensos óculos escuros.
Bateu delicadamente à porta das traseiras. Nada. Bateu com mais convicção e ela abriu-se. Foi entrando, de mansinho – vivia num local onde não se usavam grandes cautelas defensivas e os miúdos estavam habituados a calcorrear os jardins alheios e a brincar nas casas uns dos outros. O rés-do-chão estava deserto e, na sala, uma enorme árvore de natal brilhava, pejada de luzes e rodeada de presentes. O maior de todos eles era uma bicicleta vermelha igualzinha à que a menina acabara de deixar jazendo torcida no canteiro de begónias.
Consumar a troca foi coisa de minutos. Ainda a ideia lhe não tinha entrado na cabeça e já os dedos repunham a roseta azul à volta do guiador empancado. Regressou a casa sem ser detectada, com a bicicleta do puto cenourinha bem agarrada debaixo do braço. Voltou a por a sua prenda no lugar, subiu ao quarto de botins na mão, qual marido marialva, vestiu o pijama dos ursos e deitou-se. O coração galopava-lhe de tal forma que o paddington bear ao peito parecia saltar de emoção: os ursos são notoriamente susceptíveis ao choque da aventura, à vertigem da velocidade e à adrenalina do crime. Já as crianças são bastante mais resistentes.
Acabou por adormecer. Quando acordou, o quarto estava inundado pela claridade de um glorioso sol de Inverno e a casa fremia de actividade, cheiros bons e crianças felizes. Aos pés da cama, mãos mimosas haviam colocado presentes vários, entre os quais a ansiada bicicleta vermelha. Tive um sonho pateta, pensou. Fugazmente. As emoções do Natal não permitiam mais.
Do outro lado da rua, o puto cenourinha pontapeava furiosamente uma bola contra a parede, sob o olhar piedoso dum maciço de begónias em mau estado de conservação
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